domingo, 1 de novembro de 2009

Sentir a tua falta

Quero sentir a tua falta mais sincera
como o medo que até a vida cala
tal qual o frio que a voz congela
e a navalha que no pêndulo badala

Pois a presença que se demonstra ausente
é como sentir-se devorado por uma fera
que não come por estar morta ou doente
e nos olha indiferente, como a uma pedra

E tua mão que sutil na rede meu sono embala
no pesadelo vil, vem e com punhal me assalta
expondo a todos minhas chagas em ampla sala
e sendo assim, melhor então sentir a tua falta.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Luz no meu quintal

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Música concreta

Surdo feito uma porta
canta para as paredes

Gata de armário

Alvorando

Pairando na aura da alvorada
vem veloz o invisível vento
varrendo o pó da estrada
sussurra o som dos pensamentos
sutil como se não fosse nada

Sobre a copa do arvoredo
vejo o vulto da revoada
que desperta assim tão cedo
no vibrar das asas sincopadas
acompanhando o canto em contratempo

atrás dos montes o sol revela
timidamente a clara fronte
e assim que iça e incendeia as velas
não há olhar que o confronte

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Feito uma porta

Semana que vem farei uma prova para tentar entrar no curso de música da UDESC. Num processo de autopateticismo tive uma inflamação nos ouvidos, que agora estão tão entupidos que só ouço zumbidos... Será hilário fazer a prova de solfejo surdo feito uma porta. Espero que os sons voltem a martelar minhas bigornas o quanto antes...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Centro Histórico

Tingiram as paredes descascadas

Ocultando o velho que não se disfarça

Impuseram novo em anciã fachada

Iludindo o olho na moderna farsa


Vendendo para pagar o imposto que se taxa

No anseio de encher de níquel e ouro as calças

O lojista ao seu modo a história esculacha

Descambando em vida sem sentido, pobre e falsa


E nas calçadas passa o povo que consome

Carregando em mãos vazias bolsas fúteis pelas alças

Repletas de coisas inúteis, vãs, mas que tem nome


Sísifos erguendo o drama e a dor de sua raça

Bestas abstratas irreais que com olhos sentem fome

Esquecidas do passado, levam vida tão descalça...

Impudica

Em campos minados

arriscam-se os pensamentos

descambam por veredas

desfazem-se sedimentos

deixam rastros alamedas

restos claros pelos lados


Explicitamente traçados

com amarras d'outros tempos

não omitem suas sendas

os devaneios ao relento

emboscadas muitas presas

sem receio de pecado


Nesses campos de batalha

na volúpia da labuta

não descartam com navalha

os segredos lá da gruta


Sem mistério estraçalham

os pudores da conduta

sem receio dos que ralham

das ações da alma puta

Di Cavalcanti, Revista Selecta, 1919

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Num banco de praça

O verbo se perde
lerdo
atordoado
no ranço pardo
do papel manteiga
que largo
num canto qualquer
do largo junto ao pátio
do colégio
onde canta o tordo
e caminha o coro dos impuros
em louvor régio

Impreciso relógio
badala minha possível inexistência

Vermelho intenso

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Bembom

sexta-feira, 31 de julho de 2009

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sábado, 18 de julho de 2009

Santuário, Lagoa do Peri

Busco um sentido pro verbo inexato
repleto de sons e vazio de razão
colhido na ceifa do mais denso mato
da alma vagante na imensidão

Qual parto espontâneo, incerto e inato
de chamas ateia o negro carvão
incendeia da mente o claro regato
ofusca os sentidos, expande, vazão

Desprovido de chão e de lucidez
as regras transforma, meu eu se transtorna
de pasmo decai numa insensatez

Desfeito o dique do mar que transborda
faz do dicionário a estupidez
do reacionário que cala e conforma

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Passos Atrás

A vida corre rápido.
E a memória insiste em olhar para trás. Inevitál: o tempo é fugaz e, se descuidamos, ficamos sós, no presente mirando futuro incerto. Ora estamos cá. Outrora não vem mais, embora infinitaeternamente o queiramos. As ondas do mar apagam os passos do pescador, água - eterno movimento - nunca estar duas vezes no mesmo lugar. Se o tempo é vago, o que dirás das ondas? Ondas do mar, ondas de rádio, microondas, ondas de tédio. Onde quer que estejamos, quando seja, uma onda nos alveja, perpassa, invade, corrompe e depois, fugidia, desvanece descamba pro imaterial que lhe cabe. /Onda/ é convenção simbólica, código gráfico; A onda, em sua essência solapa a convenção, não entrega-se ao conceito. A onda, o tempo, a vida: nada é matéria: tudo que está dissipa-se: agora-é-o-que-ainda-não-é-o-que-virá-a-ser. Permuta, troca, transformação: eis o sentido promíscuo da existência: A existência é promíscua, a imagem é promíscua, o elétron é promíscuo. E o gráviton está no meio de nós.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Deleção

A delação de uma

relação de felação

em véspera de eleição.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Bios

Constatação

Mancos usam

tamancos de

diversos

tamanhos

O outro lado

terça-feira, 14 de julho de 2009

Instante incongruente na Avenida Imaginária

Parreiral

Crianças crescem

como cachos de uva;

crianças crescem

e comem uvas;

crianças crescem

comem vulvas

e bebem vinho...