domingo, 1 de novembro de 2009

Sentir a tua falta

Quero sentir a tua falta mais sincera
como o medo que até a vida cala
tal qual o frio que a voz congela
e a navalha que no pêndulo badala

Pois a presença que se demonstra ausente
é como sentir-se devorado por uma fera
que não come por estar morta ou doente
e nos olha indiferente, como a uma pedra

E tua mão que sutil na rede meu sono embala
no pesadelo vil, vem e com punhal me assalta
expondo a todos minhas chagas em ampla sala
e sendo assim, melhor então sentir a tua falta.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Laurindo Almeida e The Modern Jazz Quartet - Samba de uma nota só

Música concreta

Surdo feito uma porta
canta para as paredes

Gata de armário

Alvorando

Pairando na aura da alvorada
vem veloz o invisível vento
varrendo o pó da estrada
sussurra o som dos pensamentos
sutil como se não fosse nada

Sobre a copa do arvoredo
vejo o vulto da revoada
que desperta assim tão cedo
no vibrar das asas sincopadas
acompanhando o canto em contratempo

atrás dos montes o sol revela
timidamente a clara fronte
e assim que iça e incendeia as velas
não há olhar que o confronte

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Feito uma porta

Semana que vem farei uma prova para tentar entrar no curso de música da UDESC. Num processo de autopateticismo tive uma inflamação nos ouvidos, que agora estão tão entupidos que só ouço zumbidos... Será hilário fazer a prova de solfejo surdo feito uma porta. Espero que os sons voltem a martelar minhas bigornas o quanto antes...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Centro Histórico

Tingiram as paredes descascadas

Ocultando o velho que não se disfarça

Impuseram novo em anciã fachada

Iludindo o olho na moderna farsa


Vendendo para pagar o imposto que se taxa

No anseio de encher de níquel e ouro as calças

O lojista ao seu modo a história esculacha

Descambando em vida sem sentido, pobre e falsa


E nas calçadas passa o povo que consome

Carregando em mãos vazias bolsas fúteis pelas alças

Repletas de coisas inúteis, vãs, mas que tem nome


Sísifos erguendo o drama e a dor de sua raça

Bestas abstratas irreais que com olhos sentem fome

Esquecidas do passado, levam vida tão descalça...

Impudica

Em campos minados

arriscam-se os pensamentos

descambam por veredas

desfazem-se sedimentos

deixam rastros alamedas

restos claros pelos lados


Explicitamente traçados

com amarras d'outros tempos

não omitem suas sendas

os devaneios ao relento

emboscadas muitas presas

sem receio de pecado


Nesses campos de batalha

na volúpia da labuta

não descartam com navalha

os segredos lá da gruta


Sem mistério estraçalham

os pudores da conduta

sem receio dos que ralham

das ações da alma puta

Di Cavalcanti, Revista Selecta, 1919

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Num banco de praça

O verbo se perde
lerdo
atordoado
no ranço pardo
do papel manteiga
que largo
num canto qualquer
do largo junto ao pátio
do colégio
onde canta o tordo
e caminha o coro dos impuros
em louvor régio

Impreciso relógio
badala minha possível inexistência

Vermelho intenso

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009

sábado, 18 de julho de 2009

Santuário, Lagoa do Peri

Busco um sentido pro verbo inexato
repleto de sons e vazio de razão
colhido na ceifa do mais denso mato
da alma vagante na imensidão

Qual parto espontâneo, incerto e inato
de chamas ateia o negro carvão
incendeia da mente o claro regato
ofusca os sentidos, expande, vazão

Desprovido de chão e de lucidez
as regras transforma, meu eu se transtorna
de pasmo decai numa insensatez

Desfeito o dique do mar que transborda
faz do dicionário a estupidez
do reacionário que cala e conforma

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Passos Atrás

A vida corre rápido.
E a memória insiste em olhar para trás. Inevitál: o tempo é fugaz e, se descuidamos, ficamos sós, no presente mirando futuro incerto. Ora estamos cá. Outrora não vem mais, embora infinitaeternamente o queiramos. As ondas do mar apagam os passos do pescador, água - eterno movimento - nunca estar duas vezes no mesmo lugar. Se o tempo é vago, o que dirás das ondas? Ondas do mar, ondas de rádio, microondas, ondas de tédio. Onde quer que estejamos, quando seja, uma onda nos alveja, perpassa, invade, corrompe e depois, fugidia, desvanece descamba pro imaterial que lhe cabe. /Onda/ é convenção simbólica, código gráfico; A onda, em sua essência solapa a convenção, não entrega-se ao conceito. A onda, o tempo, a vida: nada é matéria: tudo que está dissipa-se: agora-é-o-que-ainda-não-é-o-que-virá-a-ser. Permuta, troca, transformação: eis o sentido promíscuo da existência: A existência é promíscua, a imagem é promíscua, o elétron é promíscuo. E o gráviton está no meio de nós.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Deleção

A delação de uma

relação de felação

em véspera de eleição.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Instante incongruente na Avenida Imaginária

Parreiral

Crianças crescem

como cachos de uva;

crianças crescem

e comem uvas;

crianças crescem

comem vulvas

e bebem vinho...

Difícil demorar

O

DIFÍCIL

Ofício

DE MORAR

Em edifício

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Freudiana

São tão altos

os precipícios d’onde saltam

aos sobressaltos

meus sentimentos

que me espanto

por não descobrir

apesar de intensa procura —

a caverna obscura

de sonhos ou de memória

em que se escondem.

Tictactictactic

Em todo momento
do ponteiro que
gira move
gira sem
parar
um som
de ritmo
constante
que soa antes
do primeiro tic-tac
que bate este instante
em que sempre estou agora

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Cena Real

Um abacateiro
cuspiu abacate
no teto do banheiro
do bar cujas telhas
desabaram no ato

Hai Kai de Bêbado

Caneco seco
carrego comigo
o último gole

Cecília

domingo, 5 de julho de 2009

Fotografia do orgânico no sal difundida nos elétrons do metal: Mergulho no imaterial

1968, um mergulho congelado no tempo. Um menino entrega seu corpo ao mar de Itapema, no choque da pele e da água salgada. Momento efêmero de prazer, talvez não mais na memória do menino-hoje-velho, ou finado. A pele enruga-se, e os prazeres desfazem-se nas cicatrizes do tempo. A água, outrora salgada, agora poluição. Do vazio infinito de possibilidades da infância ao infinito vazio da inexistência. Após muitos choques na vida, o corpo não mais choca-se com o mar. A imagem envelhece, o papel mancha, e a vida se apaga. Nem alegrias, nem chagas. Não mais o frio do mar, nem o calor do sol. Esquece-se o momento, o prazer, a imensidão, a liberdade. Esquece-se do tempo, a imagem perde-se num baú, perdido num porão, a pessoa fenece, a lembrança emagrece. No mais, somente pó, cinzas, e solidão.

Porém, sobrevive ao tempo o fragmento da ação, infância intacta, lembrança inexata perdida no binário do silício-difusão. O êxtase do momento passado permeia-se ad infinitum aos olhos do internauta, voyeur do imaterial.

Hermeto Pascoal - Rebuliço (Rio Loco festival - Toulouse, France, 2005)

Ela

Ela abriu os trabalhos no salão
limpou o espaço
espalhou pernas e braços
por paredes e assoalho
arrendando olhos
exortando o cansaço
e sem seqüelas

Ela estava aqui
ou em qualquer lugar
envolta pelos véus d'um despertar
mulher atenta ao que vê
revoluteia o corpo
insiste em por o povo
em pleno chão
com face firme na areia

Corpo fechado não permeia
olho gordo ou fala feia
mau olhado é tiro falho
urubu come na ceia

E quando dança o fogo ateia
se despenteia
espalha a teia
atrai
destrói ameias
tombam telhas
no amor peleia
faz a feira
afasta inveja
- que é coisa feia

sábado, 27 de junho de 2009

Tráfego da imagem

O que interessa nesta imagem não é a imagem propriamente dita, mas sim o processo pelo qual passou: Em 2001 fotografei esta cena de um filme que passava na televisão (O qual não anotei o nome). Utilizei-me de minha velha Pentax Program-A 1985; em seguida revelei o filme em meu laboratório PB. Lembro-me que gostei do efeito da falta de perspectiva resultante do registro. Depois a imagem ficou esquecida em uma daquelas caixas das memórias guardadas envoltas no pó e no bolor dos tempos.
Há cerca de uns dois meses atrás, fotografei a fotografia com minha digital Sony DSC-W170 e, agora, a imagem retorna ao mundo do efêmero e elétrico, não na TV, mas no computador. Agora, porém, não há mais movimento.

3D

Charada

Vinte passos eu dei
Sem saber aonde eu ia
Vinte passos eu daria
Sem saber por onde andei

Vinte dias se passaram
E de casa eu não saía
Vim de casa e não sabia
Onde ia ou onde estava

Me procurava,
E não me achava.
Aonde estava?

Eu não estava...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Milton Nascimento e Elis Regina - Canção do Sal

Elis Regina - Corsário (João Bosco - Aldir Blanc) 1976



Sem muitas palavras. Elis foi a melhor cantora que já existiu, e viveu um momento de ouro para a música brasileira, onde a criatividade ultrapassou e deixou em frangalhos todas as barreiras.

Realismo Abstrato VI

terça-feira, 23 de junho de 2009

As cascas caem
da parede que decresce
O vidro opaco pelo pó
nada diz
ofusca o que há lá fora
O velho envolve
o olho
de mim que estou
aqui agora

Oxidutos gotejam a vida
que se esvai

Absurdo: de saída
minh'alma sai

Hai Kai mínimo

Smurf
no orvalho
pratica surf

Pessoa

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo?
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
não os meus tristes passos,
Mas a realidade de eu ter passos comigo?

Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Para mim próprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo -
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.

Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora -
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua -
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora:

Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.

- Fernando Pessoa -

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Manuela 1996

Veja bem:
Sem você não sou ninguém
Tua voz me tira
Da mais profunda catatonia
De densa névoa
E negras águas

Teu corpo revira meu peito
Sacode o leito
Onde ontem eu só dormia
Teus lábios falam minha língua
Lânguidos sussurros
Evocam infância tardia
À tarde
de noite
todo dia

veja bem:
sou você e não sei mais quem
sou a cor de teus olhos,
teus seios,
que cada curva sei decor

e salto ao lado
de teu sono sereno
suspiro afagos de corpo pleno
sem planos nem apego
e eis que me pego a cantar:
sou um ego que é só sossego

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Paulinho Nogueira - Samba em Prelúdio

Historia de zorros

Wang vio dos zorros parados en las patas traseras y apoyados contra un árbol. Uno de ellos tenia una hoja de papel en la mano y se reían como compartiendo una broma.

Trató de espantarlos, pero se mantuvieron firmes y él disparo contra el del papel; lo hirió en el ojo y se llevó el papel. En la posada, refirió su aventura a los otros huéspedes. Mientras estava hablando, entró un señor, que tenia un ojo lastimado. Escuchó con interés el cuento de Wang y pidió que le mostraran el papel. Wang ya iba a mostrárselo, quando el posadero notó que el recién llegado tenia cola. ¡Es un zorro!, exclamó y en el acto el señor se convirtió en um zorro y huyó.

Los zorros intentaron repetidas veces recuperar el papel, que estaba cubierto de caracteres ininteligibles; pero fracasaron. Wang resolvió volver a su casa. En el camino se encontró con toda su família, que se dirigía a la capital. Declararon que él les había ordenado ese viaje, y su madre le mostró la carta en que le pedía que vendiera todas las propriedades y se juntara con él en la capital. Wang examinó la carta y vio que era una hoja en blanco. Aunque ya no tenían techo que los cobijara, Wang ordenó: regresemos.

Un día apareció un hermano menor que todos habían tenido por muerto. Preguntó por las desgracias de la familia y Wang le refirió toda la historia. Ah, dijo el hermano, cuando Wang llegó a su aventura con los zorros, ahí está la raíz de todo el mal. Wang mostró el documento. Arrancándoselo, su hermano lo guardó con apuro. Al fin he recobrado lo que buscaba, exclamó y, convirtiéndoso em zorro, se fue.

 Niu Chiao, erudito e poeta chinês do Séc. XIX.

IN BORGES, Jorge Luis; CASARES, Adolfo Bioy ; OCAMPO, Silvina. Antologia de la literatura fantástica. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1997. P. 305-306.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Para mayores de 50 y los que son jovenes pero observan preocupados... un articulo de Eduardo Galeano.

Um amigo meu, Juan, enviou-me este artigo do Eduardo Galeano: acredito ser interessante postar aqui, aos que interessar possa...

 "Lo que me pasa es que no consigo andar por el mundo tirando cosas y cambiándolas por el modelo siguiente sólo porque a alguien se le ocurre agregarle una función o achicarlo un poco.

    No hace tanto, con mi mujer, lavábamos los pañales de los críos, los colgábamos en la cuerda junto a otra ropita, los planchábamos, los doblábamos y los preparábamos para que los volvieran a ensuciar.

    Y ellos, nuestros nenes, apenas crecieron y tuvieron sus propios hijos se encargaron de tirar todo por la borda, incluyendo los pañales.

    ¡Se entregaron inescrupulosamente a los desechables! Si, ya lo sé. A nuestra generación siempre le costó tirar. ¡Ni los desechos nos resultaron muy desechables! Y así anduvimos por las calles guardando los mocos en el bolsillo y las grasas en los repasadores.

    ¡¡¡Nooo!!! Yo no digo que eso era mejor. Lo que digo es que en algún momento me distraje, me caí del mundo y ahora no sé por dónde se entra. Lo más probable es que lo de ahora esté bien, eso no lo discuto. Lo que pasa es que no consigo cambiar el equipo de música una vez por año, el celular cada tres meses o el monitor de la computadora todas las navidades.

    ¡Guardo los vasos desechables!

    ¡Lavo los guantes de látex que eran para usar una sola vez!

    ¡Apilo como un viejo ridículo las bandejitas de espuma plástica de los pollos!

    ¡Los cubiertos de plástico conviven con los de acero inoxidable en el cajón de los cubiertos!

    ¡Es que vengo de un tiempo en el que las cosas se compraban para toda la vida!

    ¡Es más!

    ¡Se compraban para la vida de los que venían después!

    La gente heredaba relojes de pared, juegos de copas, fiambreras de tejido y hasta palanganas de loza.

    Y resulta que en nuestro no tan largo matrimonio, hemos tenido más cocinas que las que había en todo el barrio en mi infancia y hemos cambiado de heladera tres veces.

    ¡¡Nos están fastidiando! ! ¡¡Yo los descubrí!! ¡¡Lo hacen adrede!! Todo se rompe, se gasta, se oxida, se quiebra o se consume al poco tiempo para que tengamos que cambiarlo. Nada se repara. Lo obsoleto es de fábrica.

    ¿Dónde están los zapateros arreglando las media-suelas de las Nike?

     ¿Alguien ha visto a algún colchonero escardando sommiers casa por casa?

    ¿Quién arregla los cuchillos eléctricos? ¿El afilador o el electricista?

    ¿Habrá teflón para los hojalateros o asientos de aviones para los talabarteros?

    Todo se tira, todo se desecha y, mientras tanto, producimos más y más basura.

    El otro día leí que se produjo más basura en los últimos 40 años que en toda la historia de la humanidad.

    El que tenga menos de 40 años no va a creer esto: ¡¡Cuando yo era niño por mi casa no pasaba el basurero!!

    ¡¡Lo juro!! ¡Y tengo menos de... años!

    Todos los desechos eran orgánicos e iban a parar al gallinero, a los patos o a los conejos (y no estoy hablando del siglo XVII)

    No existía el plástico ni el nylon. La goma sólo la veíamos en las ruedas de los autos y las que no estaban rodando las quemábamos en la Fiesta de San Juan.

    Los pocos desechos que no se comían los animales, servían de abono o se quemaban. De 'por ahí' vengo yo. Y no es que haya sido mejor. Es que no es fácil para un pobre tipo al que lo educaron con el 'guarde y guarde que alguna vez puede servir para algo', pasarse al 'compre y tire que ya se viene el modelo nuevo'.

    Mi cabeza no resiste tanto.

    Ahora mis parientes y los hijos de mis amigos no sólo cambian de celular una vez por semana, sino que, además, cambian el número, la dirección electrónica y hasta la dirección real.

    Y a mí me prepararon para vivir con el mismo número, la misma mujer, la misma casa y el mismo nombre (y vaya si era un nombre como para cambiarlo) Me educaron para guardar todo. ¡¡¡Toooodo!!! Lo que servía y lo que no. Porque algún día las cosas podían volver a servir. Le dábamos crédito a todo.

    Si, ya lo sé, tuvimos un gran problema: nunca nos explicaron qué cosas nos podían servir y qué cosas no. Y en el afán de guardar (porque éramos de hacer caso) guardamos hasta el ombligo de nuestro primer hijo, el diente del segundo, las carpetas del jardín de infantes y no sé cómo no guardamos la primera caquita. ¿Cómo quieren que entienda a esa gente que se desprende de su celular a los pocos meses de comprarlo?

    ¿Será que cuando las cosas se consiguen fácilmente, no se valoran y se vuelven desechables con la misma facilidad con la que se consiguieron?

    En casa teníamos un mueble con cuatro cajones. El primer cajón era para los manteles y los repasadores, el segundo para los cubiertos y el tercero y el cuarto para todo lo que no fuera mantel ni cubierto. Y guardábamos.. . ¡¡Cómo guardábamos!! ¡¡Tooooodo lo guardábamos!! ¡¡Guardábamos las chapitas de los refrescos!! ¡¿Cómo para qué?! Hacíamos limpia-calzados para poner delante de la puerta para quitarnos el barro. Dobladas y enganchadas a una piola se convertían en cortinas para los bares. Al terminar las clases le sacábamos el corcho, las martillábamos y las clavábamos en una tablita para hacer los instrumentos para la fiesta de fin de año de la escuela. ¡Tooodo guardábamos!

    ¡¡¡Las cosas que usábamos!!!: mantillas de faroles, ruleros, ondulines y agujas de primus. Y las cosas que nunca usaríamos. Botones que perdían a sus camisas y carreteles que se quedaban sin hilo se iban amontonando en el tercer y en el cuarto cajón. Partes de lapiceras que algún día podíamos volver a precisar. Tubitos de plástico sin la tinta, tubitos de tinta sin el plástico, capuchones sin la lapicera, lapiceras sin el capuchón. Encendedores sin gas o encendedores que perdían el resorte. Resortes que perdían a su encendedor.

    Cuando el mundo se exprimía el cerebro para inventar encendedores que se tiraban al terminar su ciclo, inventábamos la recarga de los encendedores descartables. Y las Gillette -hasta partidas a la mitad- se convertían en sacapuntas por todo el ciclo escolar. Y nuestros cajones guardaban las llavecitas de las latas de sardinas o del corned-beef, por las dudas que alguna lata viniera sin su llave. ¡Y las pilas! Las pilas de las primeras Spica pasaban del congelador al techo de la casa. Porque no sabíamos bien si había que darles calor o frío para que vivieran un poco más. No nos resignábamos a que se terminara su vida útil, no podíamos creer que algo viviera menos que un jazmín.

    Las cosas no eran desechables. Eran guardables. ¡¡¡Los diarios!!! Servían para todo: para hacer plantillas para las botas de goma, para poner en el piso los días de lluvia y por sobre todas las cosas para envolver. ¡¡¡Las veces que nos enterábamos de algún resultado leyendo el diario pegado al trozo de carne!!!

    Y guardábamos el papel plateado de los chocolates y de los cigarros para hacer guías de pinitos de navidad y las páginas del almanaque para hacer cuadros y los cuentagotas de los remedios por si algún medicamento no traía el cuentagotas y los fósforos usados porque podíamos prender una hornalla de la Volcán desde la otra que estaba prendida y las cajas de zapatos que se convirtieron en los primeros álbumes de fotos. Y las cajas de cigarros Richmond se volvían cinturones y posa-mates y los frasquitos de las inyecciones con tapitas de goma se amontonaban vaya a saber con qué intención, y los mazos de naipes se reutilizaban aunque faltara alguna, con la inscripción a mano en una sota de espada que decía 'éste es un 4 de bastos'.

    Los cajones guardaban pedazos izquierdos de palillos de ropa y el ganchito de metal. Al tiempo albergaban sólo pedazos derechos que esperaban a su otra mitad para convertirse otra vez en un palillo.

    Yo sé lo que nos pasaba: nos costaba mucho declarar la muerte de nuestros objetos. Así como hoy las nuevas generaciones deciden 'matarlos' apenas aparentan dejar de servir, aquellos tiempos eran de no declarar muerto a nada: ¡¡¡ni a Walt Disney!!!

    Y cuando nos vendieron helados en copitas cuya tapa se convertía en base y nos dijeron: 'Cómase el helado y después tire la copita', nosotros dijimos que sí, pero, ¡¡¡minga que la íbamos a tirar!!! Las pusimos a vivir en el estante de los vasos y de las copas. Las latas de arvejas y de duraznos se volvieron macetas y hasta teléfonos. Las primeras botellas de plástico se transformaron en adornos de dudosa belleza. Las hueveras se convirtieron en depósitos de acuarelas, las tapas de botellones en ceniceros, las primeras latas de cerveza en portalápices y los corchos esperaron encontrarse con una botella.

    Y me muerdo para no hacer un paralelo entre los valores que se desechan y los que preservábamos. ¡¡¡Ah!!! ¡¡¡No lo voy a hacer!!! Me muero por decir que hoy no sólo los electrodomésticos son desechables; que también el matrimonio y hasta la amistad son descartables.

    Pero no cometeré la imprudencia de comparar objetos con personas. Me muerdo para no hablar de la identidad que se va perdiendo, de la memoria colectiva que se va tirando, del pasado efímero. No lo voy a hacer. No voy a mezclar los temas, no voy a decir que a lo perenne lo han vuelto caduco y a lo caduco lo hicieron perenne. No voy a decir que a los ancianos se les declara la muerte apenas empiezan a fallar en sus funciones, que los cónyuges se cambian por modelos más nuevos, que a las personas que les falta alguna función se les discrimina o que valoran más a los lindos, con brillo y glamour.

    Esto sólo es una crónica que habla de pañales y de celulares. De lo contrario, si mezcláramos las cosas, tendría que plantearme seriamente entregar a la 'bruja' como parte de pago de una señora con menos kilómetros y alguna función nueva. Pero yo soy lento para transitar este mundo de la reposición y corro el riesgo de que la 'bruja' me gane de mano y sea yo el entregado.

    Hasta aquí Eduardo Galeano"

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Imotiva

Regurgito o fel de dias mais sofríveis
sou o menestrel de minhas próprias crises
cruzo o canal da desesperança
como quem já não anda e, mesmo assim, se cansa
Causo turbidade em minha memória que se alastra
e logo desgasta.
Desgostoso tempo que passo em vão
Envio e-mail para o vazio
Frio e sombrio,
não choro mas também não rio
Passivo e sem paixão,
aguardo teu novo cio

Vacalhada

domingo, 3 de maio de 2009

Glúteos

Glúteos, glúteos, glúteos

Absurdo balançar de coxas-pêndulo

Pés descalços no cimento

Na cabeça gula

E desejo imenso.

 

Glúteos, glúteos, glúteos

Que bem me trazem

Seja na maromba de pilates

Ou na estabanada celulite

De coca cola e chocolate.

 

Glúteos, glúteos, glúteos

Nas praias e ruas vejo muitos

Em meio às dúvidas, uma certeza:

Ou ame-os, ou chute-os!

domingo, 19 de abril de 2009

Aviso

Aqueles que tem o rabo preso
Que tirem seus cús da reta...

Amianto

terça-feira, 14 de abril de 2009

Realismo abstrato IV

RrrÚú...

A galinha da pomba arrulha
junto à garrafa sem rolha
ao lado de sua própria moela

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Ary Barroso


Absurda lembrança

Sombras epidérmicas de corpos celestes
Pairam sobre solo arenoso;
Das velas soterradas no naufrágio-peste
Nada sobrevive, é lodo
Longo é o caminho que nos separa do vazio
Duros são os dedos estilhaçados pelo frio

Nos corações, solidão e medo
Nos ossos o contundente crepitar de um arrepio
E nas almas desvairadas
Impalpáveis em seu cerne
A absurda lembrança
De terem sido devoradas
Por um berne.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Samba, só no carnaval?

É curioso como no carnaval, todos parecem gostar de samba: As rádios, a televisão, os automóveis desembestados com a percursão a milhão. Agrupamentos de ritmistas que unem-se tocando algo que acreditam ser samba, mas que não passa de marcha militar...
Tudo tão artificial, tão superficial, todos cantam sambas porque faz parte da cerimônia, assim como faz parte da cerimônia assistir ao show global do "Rei" Roberto todo final de ano, até que a morte nos separe. Assim como em baile de debutante tem que ter a tão esperada valsa e nos aniversários o "parabéns à você".
Não passei o carnaval em lugar algum. Não vi os desfiles pela televisão, não participei de blocos, sequer toquei um samba em meu violão! Sou um pecador, por isso? Devo ajoelhar-me diante do túmulo de Cartola, pedindo-lhe perdão por não ter sambado o carnaval? Mas, Cartola, meu violão samba o ano inteiro, meu velho! Lembro-me de um carnaval em que minha irmã brigou invejosamente comigo porque eu ganhei uma camiseta oficial da Estação Primeira de Mangueira: dizia que aquela camisa tinha que ser dela, pois ela TORCIA para a mangueira. Torcia? Mas ela nem ouve samba! Como pode torcer para a mangueira? Será que ela sabe, Cartola, quem foi que fundou a Mangueira? Será que ela sabe o significado das cores, o verde, o rosa?
Mas deixa prá lá. É tradição. Ia pegar mal não gostar de samba em pleno carnaval, correto? E afinal, quem sou eu para ficar falando dos outros?

Novo dia

Bom, me mudei de casa. Após o transtorno de desmontar e encaixotar toda uma vida, transportar precariamente essa vida em uma kombi, já não estou mais onde estava. Como disse Chico Science "um passo à frente, e você já não está no mesmo lugar" Sensato...
Sensato também foi eu acordar bem cedo para assistir ao último espetáculo de cores da alvorada visto da já-não-minha-casa: Que delícia: acordo com os passos de meu amor que desce ao banheiro: abro os olho e vejo os primeiro raios de luz: sem sair do colchão, acompanho durante cerca de meia hora a paz do dia que nasce: renasço com o dia: desço as escadas e começa a correria: caixas e móveis se agitam: meu mundo se precipita pelo abismo: já sou outro: a todo instante o sou: e esses instantes de sol, os levarei sempre comigo, quem quer que eu seja ou venha a ser!
Vida nova para todos!!!


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Canonet QL 17

Minha velha Canonet QL17, descansa decorativamente sobre a madeira, pendurou as chuteiras, porém continua linda e robusta desde 1965, quando os objetos e instrumentos eram feitos para durar. Comprei-a num antiquário, em 2002, mandei fazer uma revisão e colhi várias imagens com ela. Como não era tão prática quanto a minha Pentax oitentista program-A, utilizei-a mais para fazer poesia. É uma boa poetisa: tem olhos aguçados que sussurram quando piscam.

Saramago desembusha e Bush se esborrasha

George Bush, ou a idade da mentira
By José Saramago

"Pergunto-me como e porquê Estados Unidos, um país em tudo grande, tem tido, tantas vezes, tão pequenos presidentes. George Bush é talvez o mais pequeno de todos eles. Inteligência medíocre, ignorância abissal, expressão verbal confusa e permanentemente atraída pela irresistível tentação do puro disparate, este homem apresentou-se à humanidade com a pose grotesca de um cowboy que tivesse herdado o mundo e o confundisse com uma manada de gado. Não sabemos o que realmente pensa, não sabemos sequer se pensa (no sentido nobre da palavra), não sabemos se não será simplesmente um robot mal programado que constantemente confunde e troca as mensagens que leva gravadas dentro. Mas, honra lhe seja feita ao menos uma vez na vida, há no robot George Bush, presidente dos Estados Unidos, um programa que funciona à perfeição: o da mentira. Ele sabe que mente, sabe que nós sabemos que está a mentir, mas, pertencendo ao tipo comportamental de mentiroso compulsivo, continuará a mentir ainda que tenha diante dos olhos a mais nua das verdades, continuará a mentir mesmo depois de a verdade lhe ter rebentado na cara. Mentiu para fazer a guerra no Iraque como já havia mentido sobre o seu passado turbulento e equívoco, isto é, com a mesma desfaçatez. A mentira, em Bush, vem de muito longe, está-lhe no sangue. Como mentiroso emérito, é o corifeu de todos aqueles outros mentirosos que o rodearam, aplaudiram e serviram durante os últimos anos.
George Bush expulsou a verdade do mundo para, em seu lugar, fazer frutificar a idade da mentira. A sociedade humana actual está contaminada de mentira como da pior das contaminações morais, e ele é um dos principais responsáveis. A mentira circula impunemente por toda a parte, tornou-se já numa espécie de outra verdade. Quando há alguns anos um primeiro-ministro português, cujo nome por caridade omito aqui, afirmou que “a política é a arte de não dizer a verdade”, não podia imaginar que George Bush, tempos depois, transformaria a chocante afirmação numa travessura ingénua de político periférico sem consciência real do valor e do significado das palavras. Para Bush a política é, simplesmente, uma das alavancas do negócio, e talvez a melhor de todas, a mentira como arma, a mentira como guarda avançada dos tanque e dos canhões, a mentira sobre as ruínas, sobre os mortos, sobre as míseras e sempre frustradas esperanças da humanidade. Não é certo que o mundo seja hoje mais seguro, mas não duvidemos de que seria muito mais limpo sem a política imperial e colonial do presidente dos Estados Unidos, George Walker Bush, e de quantos, conscientes da fraude que cometiam, lhe abriram o caminho para a Casa Branca. A História lhes pedirá contas."
José Saramago
Agradecimentos a Andrea Lion pela dica do Blog

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Um animal sonhado por Kafka

"É um animal com um cauda grande, de muitos metros de comprimento, parecida com a da raposa. Por vezes eu gostaria de segurá-la, mas é impossível: o animal está sempre em movimento, a cauda sempre de um lado para o outro. O animal tem algo de canguru, mas a cabeça pequena e oval não é característica e tem alguma coisa de humano; só os dentes tem força expressiva, quer os esconda ou mostre. Tenho seguidamente a impressão de que o animal quer me amestrar; senão, que propósito pode ter ao retirar-me a cauda quando quero agarrá-la, e depois esperar tranqüilamente que ela volte a atrair-me, para logo tornar a saltar?"
KAFKA, Franz. Hochzeitsvorbereitungen auf dem Lande, 1953 IN BORGES, Jorge Luis e GUERRERO, Margarita. O livro dos seres imaginários. São Paulo: Globo, 1996. 7ª Ed.; P. 27

Impressionismo Fotográfico I: Prédios à noite


Bilhete formal mais preocupado com a forma do que com a informação

Prezado senhor,

Favor lustrar o lustre da sala de estar
para trazer mais luz e ar
ao clube de lazer

Atenciosamente,

O gerente

Quarta-feira, 2434

Malaco


Associação livre de palavras em 2614 manhã de clima manhoso

Altero
meu terno de
halterofilista.
Procuro na lista
(telefônica) o
telefone de um
filatelista.
Digito
o número, mas
passo por crise afônica.
Nada digo, nem
remunero o profissional, que
fica dizendo
“alô
alô
alô”
ao léu.

Olho
para o céu:
o sol se
esconde em véu
de nuvens.

Pássaros
passam rente ao
campanário
- réplica
do sistema
planetário –
ouço canto
de canário
amarelo.

Elaboro
planos para meu
horário de
folga.
É longa
a espera,
mas não tenho
pressa:
tenho
consciência
de que o melhor
é ter
paciência, pois
quem tem pressa,
come cru
(e eu
Não nasci
Para ser
Urubu)...

Animus/Anima


Pátina do tempo

Nas mãos de Cronos, até mesmo uma caixa d'água de amianto pode tornar-se bela. O mesmo tempo que desmantela uma face outrora bela, que põe em ruínas cidades e quimeras, com os fungos e a erosão aperfeiçoa aquilo que o humano pôs a mão. No craquelê da pele e da tela, o tempo é o grande pintor, o maior escultor, o grande artista. Isso Chico Buarque já disse em sua canção "O tempo e o artista", do disco Paratodos, de 1993, o último ainda lançado em vini pelo nosso patrimônio cultural de Hollanda...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ilustre vizinho




Tudo bem, não são boas fotos, mas como, em dois anos, essa é a primeira vez que eu recebo uma visita deste ilustre vizinho, não resisti em expô-lo assim, da maneira que pude registrá-lo. Sabe lá quando é que poderei vê-lo novamente? Vale dizer que este foi o maior tucano que eu já vi: sem "história de pescador", media uns bons 60cm (fora o bico!). As duas primeiras fotos são recortes de fotos maiores - por isso temos a definição deplorável! A terceira foi o mais próximo que pude chegar deste nobre rapaz (ou seria uma dama?) Como vou me mudar na semana que vem, tomo esta visita como uma despedida - de minha parte, posto que, para ele, eu não significo nada...

Trinta réis (Visitante sazonal)

Em dois anos de morada neste meu paraíso não reservado, é a terceira vez que essas graciosas aves vêm me visitar. Fazem seu bailado e suas acrobacias para, em pleno vôo, arrancar as frutinhas de uma árvore. Durante alguns dias, me fazem companhia durante às tardes, depois somem, seguem seu caminho, viajam para outros lugares, comem frutinhas em outras aragens, bailam para outras infinitas pessoas que as podem ver, talvez você.

O oportunista (corretor de imóveis)


Peste imaginária

Ratos de rabos rotos
derretem sem deixar pistas
na estrada ou na calçada.

Procuro, procuro
e o povo tabém procura
na loucura paranóica
de uma peste imaginária.

Procuro, procuras
e procuramos no esgotos
bueiros
sarjetas
quintais
casas
porões
matos
e matagais
potreiros
e pastos

Procuramos, procuramos,
mas, de ratos
não encontramos restos,
nem rastros.

Sequer abrimos
os vazilhames de inseti-raticida
importado
do Paraguai

Para limparmos o recipiente
de nossos medos,
dedetizamos, então, nossas idéias.

A atitude foi eficiente:
eliminamos os ratos imaginários.
O problema, agora,
são as baratas
que brotam, involuntárias
das prateleiras
de nossos armários.

Fartura

Farta cultura
Farta curtura
Falta curtura
Falta cultura

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O desconstrutor de sons

Ator: Anderson Luiz Tambosi

Vazante

...eis a questão:

Paredes brancas
típico ruído de água
vazando em cerâmica branca
— nos banheiros públicos
©elite é fator popular.

A bexiga empertigada aperta,
a uréia desce uretra abaixo.

Três bitucas de cigarro
e uma goma de mascar
mascada
repousam na cuba
vazia.
Não podem perceber
o jato quente
que rapidamente
se aproxima.

O jato jateia
em meio
à água corrente;
balé de bitucas e goma
mascada
dançam e balançam
num sobe e desce contínuo.

Gota a gota,
A dança se esgota.

(Típico ruído de água vazando)

Café