sexta-feira, 31 de julho de 2009

sábado, 18 de julho de 2009

Santuário, Lagoa do Peri

Busco um sentido pro verbo inexato
repleto de sons e vazio de razão
colhido na ceifa do mais denso mato
da alma vagante na imensidão

Qual parto espontâneo, incerto e inato
de chamas ateia o negro carvão
incendeia da mente o claro regato
ofusca os sentidos, expande, vazão

Desprovido de chão e de lucidez
as regras transforma, meu eu se transtorna
de pasmo decai numa insensatez

Desfeito o dique do mar que transborda
faz do dicionário a estupidez
do reacionário que cala e conforma

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Passos Atrás

A vida corre rápido.
E a memória insiste em olhar para trás. Inevitál: o tempo é fugaz e, se descuidamos, ficamos sós, no presente mirando futuro incerto. Ora estamos cá. Outrora não vem mais, embora infinitaeternamente o queiramos. As ondas do mar apagam os passos do pescador, água - eterno movimento - nunca estar duas vezes no mesmo lugar. Se o tempo é vago, o que dirás das ondas? Ondas do mar, ondas de rádio, microondas, ondas de tédio. Onde quer que estejamos, quando seja, uma onda nos alveja, perpassa, invade, corrompe e depois, fugidia, desvanece descamba pro imaterial que lhe cabe. /Onda/ é convenção simbólica, código gráfico; A onda, em sua essência solapa a convenção, não entrega-se ao conceito. A onda, o tempo, a vida: nada é matéria: tudo que está dissipa-se: agora-é-o-que-ainda-não-é-o-que-virá-a-ser. Permuta, troca, transformação: eis o sentido promíscuo da existência: A existência é promíscua, a imagem é promíscua, o elétron é promíscuo. E o gráviton está no meio de nós.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Deleção

A delação de uma

relação de felação

em véspera de eleição.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Instante incongruente na Avenida Imaginária

Parreiral

Crianças crescem

como cachos de uva;

crianças crescem

e comem uvas;

crianças crescem

comem vulvas

e bebem vinho...

Difícil demorar

O

DIFÍCIL

Ofício

DE MORAR

Em edifício

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Freudiana

São tão altos

os precipícios d’onde saltam

aos sobressaltos

meus sentimentos

que me espanto

por não descobrir

apesar de intensa procura —

a caverna obscura

de sonhos ou de memória

em que se escondem.

Tictactictactic

Em todo momento
do ponteiro que
gira move
gira sem
parar
um som
de ritmo
constante
que soa antes
do primeiro tic-tac
que bate este instante
em que sempre estou agora

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Cena Real

Um abacateiro
cuspiu abacate
no teto do banheiro
do bar cujas telhas
desabaram no ato

Hai Kai de Bêbado

Caneco seco
carrego comigo
o último gole

Cecília

domingo, 5 de julho de 2009

Fotografia do orgânico no sal difundida nos elétrons do metal: Mergulho no imaterial

1968, um mergulho congelado no tempo. Um menino entrega seu corpo ao mar de Itapema, no choque da pele e da água salgada. Momento efêmero de prazer, talvez não mais na memória do menino-hoje-velho, ou finado. A pele enruga-se, e os prazeres desfazem-se nas cicatrizes do tempo. A água, outrora salgada, agora poluição. Do vazio infinito de possibilidades da infância ao infinito vazio da inexistência. Após muitos choques na vida, o corpo não mais choca-se com o mar. A imagem envelhece, o papel mancha, e a vida se apaga. Nem alegrias, nem chagas. Não mais o frio do mar, nem o calor do sol. Esquece-se o momento, o prazer, a imensidão, a liberdade. Esquece-se do tempo, a imagem perde-se num baú, perdido num porão, a pessoa fenece, a lembrança emagrece. No mais, somente pó, cinzas, e solidão.

Porém, sobrevive ao tempo o fragmento da ação, infância intacta, lembrança inexata perdida no binário do silício-difusão. O êxtase do momento passado permeia-se ad infinitum aos olhos do internauta, voyeur do imaterial.

Hermeto Pascoal - Rebuliço (Rio Loco festival - Toulouse, France, 2005)

Ela

Ela abriu os trabalhos no salão
limpou o espaço
espalhou pernas e braços
por paredes e assoalho
arrendando olhos
exortando o cansaço
e sem seqüelas

Ela estava aqui
ou em qualquer lugar
envolta pelos véus d'um despertar
mulher atenta ao que vê
revoluteia o corpo
insiste em por o povo
em pleno chão
com face firme na areia

Corpo fechado não permeia
olho gordo ou fala feia
mau olhado é tiro falho
urubu come na ceia

E quando dança o fogo ateia
se despenteia
espalha a teia
atrai
destrói ameias
tombam telhas
no amor peleia
faz a feira
afasta inveja
- que é coisa feia